Autonomia e seu complemento, consentimento informado, são considerados como fundamentais em ética médica contemporânea. Ainda assim, as pessoas são privadas da possibilidade de fazer uma escolha informada genuína com respeito à doação de órgãos no caso de “morte cerebral”. Pode ser facilmente argumentável, cientificamente falando, que a condição de pacientes com “morte cerebral” é a de seres vivos, capazes de processar nutrientes e medicamentos, e mesmo de abrigar e nutrir sua descendência no útero. Uma distinção filosófica, não científica, entre a vida “sem sentido” da “morte cerebral” e a vida humana “significativa” enfatiza o conceito de “morte cerebral”. Contudo, ao público é dito que os com “morte cerebral” estão mortos, isto é, sem vida. Esta situação não apenas colide com o princípio da autonomia como também constitui um risco para a confiança pública no transplante de órgãos. É óbvio que as pessoas tem certas expectativas sobre os profissionais de cuidados à saúde e os que tomam decisões, e encontrar tais inconsistências pode levar o público a rejeitar o transplante de órgãos, com a utilização do conceito de “morte cerebral” levando, em última instância, ao agravamento da escassez de órgãos ao invés da atenuação que era esperada trazer.
Iftime, O. (2019). “Morte cerebral”, autonomia e o futuro do transplante de orgãos. Acta Bioethica, 25(1), pp. 63–71. Recuperado de https://actabioethica.uchile.cl/index.php/AB/article/view/53570